Área para profissionais de saúde

Informação objetiva para quem cuida do paciente.

Recebeu um paciente com a carta da MEBO Brasil ou com queixa de odor corporal persistente? Reunimos aqui um resumo técnico para apoiar a avaliação e o acompanhamento na sua prática.

Trimetilaminúria

Resumo clínico

Erro inato do metabolismo associado a variantes no gene FMO3 (cromossomo 1), que codifica a flavina monooxigenase 3 hepática. A enzima catalisa a N-oxidação da trimetilamina (TMA), de odor intenso, em N-óxido de trimetilamina (TMAO), inodoro e de eliminação renal.

A TMA é produzida pela microbiota intestinal a partir de colina, carnitina e TMAO da dieta, absorvida e levada ao fígado pela circulação portal.

Formas

  • TMAU1 (primária): início na infância ou puberdade, por variantes em FMO3. Pacientes com uma única variante podem apresentar sintomas intermitentes.
  • TMAU2 (secundária): adquirida em qualquer idade, por sobrecarga intestinal de TMA (disbiose, antibióticos, enteropatias) ou por redução funcional da enzima, com influência hormonal.

Pontos de atenção

  • O odor clássico de peixe ocorre em cerca de 10% dos casos; outras substâncias odoríferas costumam ser exaladas em conjunto.
  • Apresentação frequentemente intermitente (período perimenstrual) ou episódica (estresse).
  • Cerca de 7% dos observadores têm anosmia específica para TMA, o que pode levar à invalidação da queixa.
  • Higiene aumentada não resolve o sintoma.
  • A dosagem urinária de TMA e TMAO, indicada para triagem, não é realizada no Brasil; o teste genético tem custo elevado.

Impacto psicossocial relevante: associação com isolamento social, ansiedade, depressão e aumento do risco de suicídio. Avaliar risco ativamente.

Síndrome de referência olfativa

Sobreposição com causas metabólicas

A síndrome de referência olfativa (CID-11 6B22) é caracterizada por preocupação persistente com a crença de emitir odor corporal, acompanhada de comportamentos repetitivos de verificação, esquiva social e sofrimento significativo.

Na experiência da equipe do SEAPOSI, o diagnóstico psiquiátrico não deve ser interpretado como exclusão de causa metabólica. As condições podem coexistir, e a investigação conjunta favorece a adesão ao cuidado em saúde mental.

Abordagem que favorece a adesão

  • Validar a queixa

    Evitar abordagens que sugiram que o sintoma é imaginário.

  • Investigar em paralelo

    Conduzir a avaliação metabólica junto do cuidado emocional.

  • Cuidar em equipe

    Genética, nutrição, psicologia e psiquiatria em diálogo.

Diagnósticos diferenciais

Condições que podem cursar com queixa de odor

Estima-se que cerca de 30% dos casos com queixa de odor corporal metabólico tenham a TMA como causa. Considerar na investigação:

  • Bromidrose
  • Hiperidrose
  • Anemia falciforme
  • Apneia do sono
  • Infecção por H. pylori
  • Asma
  • Câncer de mama
  • Carcinoma pulmonar
  • DPOC
  • Fibrose cística
  • Doença hepática crônica não colestática
  • Cirrose biliar primária
  • Cirrose hepática descompensada
  • Uremia e insuficiência renal
  • Halitose intraoral
  • Fenilcetonúria
  • Leucinose (doença da urina do xarope de bordo)
  • Cetoacidose diabética
  • Doença renal em estágio final
  • Insuficiência hepática
  • Deficiência de metionina adenosiltransferase (MAT)
  • Acidemia isovalérica
  • Deficiência de 3-metilcrotonil-CoA carboxilase (MCC)
  • Vaginose bacteriana e lesões ginecológicas
  • Síndrome de referência olfativa
Investigação

Exames que podem apoiar a avaliação dos diferenciais

A solicitação deve seguir o julgamento clínico de cada caso. A lista abaixo reúne exames frequentemente úteis na investigação conduzida pelo SEAPOSI em parceria com a atenção básica.

Conteúdo destinado a profissionais de saúde. Não se destina a orientar autodiagnóstico ou automedicação.

  • Ultrassonografia de abdome total
  • Hemograma completo
  • Urina tipo 1
  • Coprocultura
  • Glicemia de jejum, hemoglobina glicada e insulina
  • Colesterol total e frações
  • Estrógenos totais e frações e progesterona
  • Testosterona total e livre
  • T3, T4 e TSH
  • Fosfatase alcalina, albumina, ureia e creatinina
  • TGO, TGP e GGT
  • Desidrogenase láctica e tempo de protrombina
  • Bilirrubinas direta e indireta
  • Sorologias para hepatites virais
  • Cortisol basal matinal
  • Colonoscopia, quando indicada
Atenção básica

Como a UBS pode apoiar este paciente

O SEAPOSI atua por teleatendimento. O acompanhamento presencial na atenção básica é parte essencial da linha de cuidado.

  1. 1

    Acolher

    Escuta sem julgamento e sem atribuir o sintoma à higiene.

  2. 2

    Investigar

    Solicitar exames conforme a avaliação clínica.

  3. 3

    Avaliar risco

    Rastrear ansiedade, depressão e ideação suicida.

  4. 4

    Encaminhar

    Referenciar para especialidades quando necessário.

  5. 5

    Compartilhar

    Manter diálogo com a equipe do SEAPOSI.

Carta ao médico da UBS

Um resumo pensado para a sua rotina.

A MEBO Brasil elaborou uma carta objetiva, revisada por geneticistas, para o paciente levar ao médico que o acompanha na atenção básica. Ela condensa as informações mais relevantes para a consulta.

A versão para download direto estará disponível em breve.

Contato para profissionais

Dúvidas técnicas, pedidos de material científico ou interesse em colaborar com a equipe: